Conto Marcado

janeiro 20, 2008 às 2:57 pm | Publicado em Conto, Sr. Cetecentos | 2 Comentários

Britania saiu do carro, deixando senhor Arno sozinho, e apertou a campainha da casa número 123. Não precisou esperar muito, pois alguém já dava a segunda volta da chave na porta. Seu irmão, Philips, saiu de meias e a cumprimentou. Ela não demorou a dizer-lhe porquê estava ali.

_A gasolina acabou. Preciso logo levar Arno à loja.
Philips não hesitou por motivos próprios.
_Pode ir com meu carro – e apontou para o Marea em frente do carro em que Britania estivera.
_Tá, serve – disse Britania, estendendo-lhe a mão para pegar as chaves.
_O que? – perguntou ele desdenhoso – Ainda não consegue fazer uma ligação direta?
_É que hoje está nublado – justificou – Vou precisar de um isqueiro no mínimo.
_Acho que seu amiguinho deve ter um.
Britania viu que não adiantava pedir mais nada. Chamou Arno para o outro carro e pediu-lhe um isqueiro. Tudo que ele viu foi um flash e quando recobrou a visão estavam numa rua escurecida pelo tempo fechado. A essa altura, Philips já estava em seu sofá assistindo a Melrose Place.

Começou a chover e o carro parrou. Britania avisou que teriam que achar mais fogo. Arno falou que seria fácil, pois é algo de que a humanidade desfruta desde a pré-história. Britania queria se livrar dele logo.

Arno, para não se desfazer de sua fala, pegou dois pauzinhos molhados de uma caixa de uvas e começou a esfregar. Britania torcia para que a mão dele enchesse de farpas quando viu um homem no ponto de ônibus separar um cigarro do bolso. Sabia o que viria em seguida.

Pegou um pedaço de madeira da mão de Arno e correu para o ponto de ônibus. Antes de dizer qualquer coisa, entrepôs a madeira entre o isqueiro e o cigarro do homem, que, sem dúvida se assustou. Britania teve tempo de abrir um sorriso amarelo antes que o homem tirasse uma arma do coldre e atirasse nela.

Arno esperou o Jardim Bandeirantes com ele, e juntos foram até aos arredores do centro. Depois, se dirigiu à loja e o homem a outro ponto de ônibus. Britania recebeu o pagamento, mas ele nunca foi retirado de sua conta.

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4 por 4

setembro 28, 2007 às 1:01 am | Publicado em Conto, Sr. Cetecentos | 1 Comentário

Enquanto ele pensava em quanto o mestre de obras ia embolsar com os azulejos superfaturados, ela imaginava como é que faziam para que eles ficassem todos iguais. Ela também se preocupa se o dinheiro consegue terminar a obra, mas é uma questão de prioridades.

A prioridade de Arruda de Campos era conseguir dormir bem e padrões inexplicáveis colocados no chão de seu quarto não a ajudaria. Tampouco seu marido, Pereira de Campos, pois estava muito ocupado com a obra e com a patente do jeito de correr de seu filho, Parreira de Campos. A única pessoa que poderia ajudar Arruda era sua filha, Mará C. Jina de Campos.

Certo dia, Mará, ao sair de seu laboratório (kit Alquimia), deixou um frasco de fungos perto de um de bactérias. Na manhã seguinte ela teve uma surpresa: sua empregada, Violeta Oliveira Santos (queria o que? De Campos?) tinha jogado tudo fora. Mará C. Jina trocou sua empregada por 4 sementes de maracujá mágicas. Plantou-as às 4 da tarde de uma quinta-feira perto da janela do quarto de sua mãe. Dessa vez ninguém jogou nada fora.

Algumas tias da família que brigavam pelo título de “Dedo Verde de Campos” teriam desistido se vissem o que Mará fez. Maracujás do tamanho de corações de mãe nasceram  e amadureceram da tarde pro dia. Alguns caíram no piso e acabaram com o problema dos azulejos. Um deles caiu na cabeça de sua mãe. Ela nunca mais se preocupou em dormir porque nunca mais acordou.

Pula, Pula.

setembro 14, 2007 às 1:19 pm | Publicado em Conto, Elvira Yoki | 2 Comentários

Da série mini-contos mais ou menos fantásticos: 

Mildinha, apelido de Cremilda, estava pulando corda com seus amigos. Ela era muito desastrada. Tropeçou na corda e morreu pisoteada.

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 #1 – Post pra ser ouvido ao som de Pula Corda, do Trem da Alegria.

#2 – Conto fantástico não quer dizer que meu conto seja excepcional, magnífico ou que ele seja transmitido domingo à noite, na Globo. Leia o primeiro parágrafo e saiba mais.

Um dia na ABL

julho 28, 2007 às 3:09 pm | Publicado em Conto, Domenik, Língua Portuguesa | 2 Comentários

Academia Brasileira de Letras, quase duas horas.

_ Bem, creio que enfim concluímos todos os tópicos da reunião do dia presente.

_ Certamente. Parece agora justo e necessário nos abstermos para um repouso alelúico.

_ Deveras, mas a colocação de Vossa Senhoria retoma, ainda que, creio, involuntariamente, a pauta referente a neologismos.

_ Recordas bem. De forma a deixar claro nossa serventia ao país nos é recomendado aprovar pelo menos um novo vocábulo…

_ Eu opto por titular como item lexical…

_ Sim, e por que não? São sinônimos.

_ Vossa Senhoria está alegando que não estou familiarizado com a acepção de sinonímia? Isso é ultrajante!

_ Nem com todas as quimeras possíveis! Um mal entendido entre nós se instalou. Minha única aspiração era a de reforçar o fato de que não deveríamos nos ater a tais matérias diante de uma contenda que pode resultar em mais uma acepção no nosso sempre primoroso Houaiss.

_ Aceitável glosa, Vossa Senhoria, bastante aceitável.

_ Grato. Algum dos presentes propõe alguma nova significação? Talvez um novo vocábulo… Ninguém? Bastante cabível senhores. Se não há mais o que discutir, creio que poderemos dar por finalizada essa reunião.

_ Vossa Senhoria, permita-me fazer uma contraposição a seu entrevero. Mas me apetece muito ressaltar que seria produtivo ad infinitum retomar as considerações a respeito do vocábulo “quase”, cada vez mais pragmático à sua maneira.

_ Deparamo-nos com mais uma discussão abarrotada de significância. Senhores, deliberem. E nada de pantomimas desta vez.

_ Não optamos por evitar temas que envolvessem seqüelas não tão apaixonantes assim?

_ Quase não há o que discutir a respeito de “quase”. Trata-se de um ícone da Fina Flor de Lácio e deve ser preservado a todo custo.

_ Senhores, não estamos diante de uma reformulação? Por que não iniciar uma revolução?

_ Elefantescamente falando, “quase” é apocalíptico e deveria ser eliminado, o item lexical “aproximadamente” cumpre muito melhor a função.

_ Utopia! De tal forma as urbes entrariam em polvorosa!

_ Quase todos os citadinos idolatram “quase”.

_ Adoração é um passo para o ódio. E creio que esta seja a causa principal dessa confabulação.

_ Ordem! Senhor, foi delimitado nas reuniões anteriores que não devemos utilizar argumentos metafísicos, mas sim metalingüísticos!

_ Exatamente, todos lembramos o que aconteceu com nosso Senhor Machado de Assis na acalorada discussão a respeito da aparente obscenidade do vocábulo “galhofa”.

_Deveras.

_ Não temos poderio suficiente para arrastar esse assunto no momento. Devemos deixá-lo pendente e convocar os membros das demais Academias. É algo grande demais, até mesmo para nós.

_ Perdoe-me, Vossa Senhoria, mas desde quando a ABL é humilde?

_ Desde sempre, claro. Somos soberbos mas não deixamos de lado a humildade de nossas origens, as mesmas de todo o povo da  Terra de Santa Cruz.

[risos gerais]

Surpresa

julho 14, 2007 às 11:28 am | Publicado em Chefe, Conto, Domenik | 2 Comentários

Hei de ter idéias hoje, prometeu a si mesmo quando acordou. Não podia passar outra reunião da empresa parado na cadeira. Já no banheiro, escovando os dentes, teve várias idéias, todas acabaram descartadas. No caminho da cozinha teve um ótimo pensamento, mas ao trombar com a cadeira este se dissipou para dar lugar à irritação.

Durante o café da manhã tinha os pensamentos a mil. Entre um gole de chá e outro vislumbrava uma nova possibilidade, mas elas nunca lhe pareciam boas o bastante. “Preciso fazer um bom retorno” pensou ele, “não posso usar idéias como essas, preciso Da Idéia”. E assim foi durante todo o café. Quando deu por si já estava atrasado.

No caminho para o trabalho prosseguia distraído, se não fossem uns relances de percepção provavelmente teria batido o carro. Mal estacionou o carro direito e já corria apressado: não podia perder a “palestra surpresa da empresa”. Rima bastante infeliz, pensou consigo no caminho.

Ao lembrar da rima teve um súbito relance e rabiscou alguma coisa apressadamente no papel. Parecia perfeito, era justamente daquilo que ele precisava. Sua manhã enfim parecia começar a dar certo.

Ao dar de cara com a porta da sala, onde estava sendo efetuada a palestra, parou. Seria educado entrar no meio de uma possível e importante explanação? pensava. Resolveu por colar o ouvido na porta e esperar por uma pausa no discurso do palestrante.

Ouvia mal, muitas pessoas pareciam falar ao mesmo tempo. Achou estranho, não parecia mais uma daquelas reuniões chatas da empresa. Ao ouvir “será que ele não vem? Estamos esperando há algum tempo…” decidiu entrar. Aquelas palavras significava que o palestrante havia se atrasado e que, portanto, ele não perdera nada além de conversas monótonas com seus colegas de trabalho.

Quando entrou todos viraram-se para ele surpresos. Lá no fundo alguém enfim gritou “Surpresa!”.

Era seu chefe, e lá vinha ele, caminhando até a frente da sala. Fez sinal para que todos ficassem em silêncio. E então começou o discurso. Disse que o atraso foi proposital para que todos os funcionários, inclusive os que costumam se atrasar pudessem ouvi-lo. Todos achavam aquela colocação muito estranha. Mesmo em meio aos sussuros dos funcionários o chefe começou.

Fez um belo discurso. Contou toda a história da empresa e do seu sucesso até hoje. Quando parecia ter terminado de falar, já entre aplausos o chefe pede silêncio novamente. “Obrigado, mas ainda não acabei. Apesar de toda nossa história aparentemente não fomos bons o bastante. E para melhorar vamos ter de fazer algumas demissões. Por isso feliz dia da demissão total e boa sorte a todos. Vocês tem até o almoço para recolher suas coisas”.

(…)

Chegou em casa confuso. Sentia um misto de conforto e frustração. Ligou o computador. Escreveu o que sobre seu dia e publicou. Só recebeu spams como resposta.

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